Tuesday, 06 May 2008

Business Class



Esta caixa azul viajou desde Vilnius ao Porto sempre em 1ª Classe enquanto que eu, feliz, seguia a morder uma sande de queijo em turística.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Frankfurt (Alemanha), 2008
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Thursday, 24 April 2008

Amália:



O som da voz da Amália é algo que nos entranha a cada palavra que soletra, é-nos fácil perceber porquê esta voz, este modo de cantar, rasgou no fado um momento eterno. Contudo ganha uma vibração especial quando viajamos com ela fora do nosso mundo, quando estamos longe de casa. Amália resume o que é ser-se português, o que é ter no mesmo local um povo que criticamos porque parece-nos a cada dia não merecer o solo em que pisa, e a nossa gente, a nossa família que é parte substancial do que somos enquanto individuos.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Vilnius (Lituânia), 2008
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Tuesday, 15 April 2008

DesAcordo ortográfico.



Se a ideia do acordo ortográfico é facilitar a escrita colando o mais possíveu a escrita ao modo como se fala, e que á (axo que agora posso escrever sem hagá pois disseram-me também que o modo de escrever passa a ser facultativo) que ajustar o entendimento entre os portugueses e os muitos brasileiros porque isso é ótimo para a força do português no mundo, então até que axo legau né?!

Primeiro demos o passo de facilitar o ensino para que as estatísticas do país não fossem ainda pior que a realidade, agora começamos fazendo do português uma bela companhia para uma boa xiclete saboreada de boca aberta.

Com tanto facilitismo qualquer dia qualquer pessoa desprovida de inteligência é adjectivada no mundo inteiro como 'a portuguese', dado que é cada vez mais inútil ter-se inteligência neste país.


Jorge Garcia Pereira
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Thursday, 27 March 2008

Não batam na Professora:



Tem-se, na minha opinião, dito uma série de disparates sobre o que se passou numa sala de aula da Escola Secundária Carolina Michaëlis no Porto. A ostracização da aluna em público, uma jovem adolescente que, mesmo tendo demonstrado uma enorme falta de respeito com uma sua professora, parece-me um absurdo e de uma injustiça individual generalizada.

Estudei numa escola de fama duvidosa no que diz respeito ao seu ambiente. Localizada numa artéria de um dos bairros mais problemáticos da cidade, a Escola Secundária do Cerco do Porto era, no meu tempo, maioritariamente formada por alunos oriundos de zonas periféricas da cidade, alguns de famílias humildes, onde a educação dos seus filhos era muita das vezes deixada a cargo dos avós, mais frágeis às exigências dos seus netos, e de famílias de classe média bem sucedidas e que confiavam ao Estado a instrução dos seus filhos. Posso garantir que a grande maioria dos meus colegas de escola seguiram os seus estudos até ao ensino superior, alguns deles sendo alunos de referência nas suas academias tendo ficando inclusive a leccionar nessas mesmas academias. É verdade que não havia na Escola Secundária do Cerco do Porto muita gente do próprio Bairro Cerco do Porto, a esses o Estado tinha permitido que se deixassem ficar pela Escola Preparatória com o mesmo nome até que desistissem e se rendessem ao trabalho precário ou ao tráfego.

Ora, num ambiente típico de escola secundária, havia no Cerco do Porto, como em todas as outras escolas da cidade, alguns alunos que conseguiam levar alguns professores ao desespero, arrancando gargalhadas a todos os seus colegas de turma, colegas esses que foram então adolescentes e que, de uma forma ou de outra, ajudaram então na humilhação de alguns dos seus professores. Havia contudo outros professores a que isso não acontecia, professores exemplares, que não se transformavam também em adolescentes ao mínimo problema, leccionavam, ensinavam, motivavam e praticamente todos (há sempre um perdido), lhes tinham respeito e, acima de tudo, admiração e gratidão.

Este cenário repete-se todos os anos, em todas as gerações, não é esta que é pior que a minha, não foi a minha pior que anterior, bem pelo contrário. Acredito que a geração desta adolescente que sentiu que tinha autoridade sobre a sua própria professora, será ainda melhor que a minha, e cenas como esta sempre existiram e voltarão a existir, num sistema de ensino tão vasto, finalmente tão democrático.

Ouvir na televisão debates de gente mimada, falando dos seus colégios de excelência, que se entrava por ser menino ou menina de famílias de tradição (vergonhosas situações estas que ainda acontecem em escolas Públicas portuguesas, em que se instalam os meninos de famílias 'bem' em escolas tipo e turmas protegidas), crucificando uma jovem adolescente como se ela fosse a imagem e responsável de tudo o que vai mal na sociedade.


Jorge Garcia Pereira
fotografia: Porto (Portugal), 2008
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Saturday, 23 February 2008

Bolha no pé.



Fosse esta senhora a Presidente da Câmara Municipal do Porto e grande parte dos problemas da cidade estariam para mim resolvidos. Infelizmente a realidade não é assim tão sedutora e obriga-me a cada instante preocupar com os rumos da actual gerência.
Vem agora a terreiro a transformação do Mercado do Bolhão em algo que desconheço. A História parece repetir-se, primeiro a conclusão precipitada das obras na Praça Carlos Alberto, depois o túnel que desagua em plena entrada de um dos melhores Museus da cidade, mais tarde a Avenida dos Aliados e por fim o Rivoli. Em alguns casos fui concordante com o que se fez, mas vem apenas aqui à lembrança todos estes casos para que fique claro que de nada tem valido à cidade unir-se na defesa do que parece ferir a sua plena identidade.
Identidade? Qual identidade?
Para além do futebol o Porto parece-me ter finalmente assumido o seu carácter bairrista no pior sentido do termo, fechada e bloqueada que está a sua cultura em circuitos populistas de quem dá votos a troco de rendimentos mínimos e de algumas romarias ao longo do ano.
Do Bolhão parece-me apenas preocupar a construção massificada que o tal projecto na mesa propõe num desrespeito total por um dos edifícios mais nobres e bem conseguidos do século passado. Quanto aos pregões do Bolhão, às senhoras com ar atrevido que me propõem comprar uma cueca a cada passagem, resta desejar-lhes boa sorte na vida, pois mesmo não sendo eternas, morrem contudo de ‘morte matada’ afogadas num rio que desagua com uma surdez ensurdecedora.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Porto (Portugal), 2008
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Friday, 25 January 2008

No mínimo.


todas os meses amontoam-se aos molhos
são gente do bairro
do bairro ao lado do meu.

gente de rendimento mínimo
que faz o mínimo
que se quer mínima.

de mãos nos bolsos
de calorias fartas
de bocas cheias.

gente de orgulho barato
de dignidade vendida
por votos comprada.


todos os meses na última semana vejo-me impedido de ir à estação de correios da minha área de trabalho porque é evadida por gente falida.
não haverá ninguém que grite* a esta gente para que acorde?

*acto ou efeito de instruir.


Jorge Garcia Pereira
fotografia: Portugal (Porto), 2008

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Monday, 14 January 2008

Uma 'sala' de oportunidade.


13 de Janeiro de 2008
O Porto tem conhecido, e apesar da falada crise, o surgimento de espaços de produção cultural nos sítios mais improváveis. "A Sala", de Susana Chiocca, é um desses exemplos.Em plena Baixa, na sua própria casa.

Uma sala na Baixa da cidade do Porto não é igual a uma sala na baixa da cidade norueguesa de Trondheim. A começar pela temperatura, climatização e isolamento efectuado, a terminar na vista da janela e na luz que irradia do exterior (ou a falta dela durante grande parte do ano). A sua sala hoje, pelo menos, não é igual à que era. "Em Trondheim" – que deve ler-se de uma forma quase imperceptível, com uma vocalização muito fechada, qualquer coisa como trundaim – "a minha sala tinha ar condicionado, 25 graus de temperatura ambiente e estava permanentemente com a luz ligada, pois durante o tempo em que lá estive era noite quase todo o dia. Aqui, em Portugal, as coisas são diferentes, na minha sala faz frio, não tenho aquecimento central, mas tenho muita luz a entrar pelas janelas". A sala é velha. As janelas deixam entrar o ar frio nesta época do ano, mesmo quando estão fechadas. Mas a casa, afinal, não é sua. Queria que fosse sua, mas ainda não é sua. Se calhar nunca vai ser sua. Mas a sala é sua. Não o espaço físico, mas "A Sala". Essa é sua. Agora é sua, já a dividiu com o ex-companheiro de casa António Lago, mas hoje é sua. Apenas sua. E recebe quem quer e mesmo quem não quer. Os amigos da Susana, os desconhecidos da Susana, se calhar aqueles que não gosta tanto mas de quem se tenta forçosamente abstrair em prol da arte.
A "Sala" (com aspas) foi oficialmente aberta em 2006, em Abril, quando o frio já não cansa a alma. "Eu e o António [Lago] vivíamos juntos em Lisboa e tínhamos um pequeno sótão. Pensámos fazer uma coisa do género no local. Depois viemos para o Porto, para esta casa, reparamos que o espaço era amplo, arejado, e na maioria das vezes não o utilizávamos para o fim a que estava destinado. O António tinha um projecto musical na altura e era onde costumava ensaiar. A nossa ideia foi sempre abrir aquele local às pessoas, receber as pessoas e ensinar-lhes a gostar da arte". Da ideia ao efeito foi um instante. "Abrir a sala não é uma ideia original". Se calhar, no Porto, em Portugal, é. "Se calhar é, não sei". Susana Chiocca, a interlocutora, ri muito enquanto fala. Provoca trejeitos e sons numa performance constante. "Achas que a vida é uma performance constante? Eu acho que não. Depende. Há dias em que acordo de mau humor. Não é sempre como hoje". O "hoje" representa um dia de boa disposição. Tentamos adivinhar como será ela mal-disposta. E não conseguimos.

Conversas pessoais
Susana Chiocca tem 33 anos camuflados num sorriso pronto, vem das artes plásticas, tem formação superior pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto na área da escultura. Esteve durante quatro meses no frio da Noruega, a estudar, a aproveitar novos mundos que se abriam à sua forma de ver a arte, um tempo que lhe permitiu dar um novo significado… ao Sol. "Era extraordinário ver a alegria e boa disposição das pessoas quando surgia o Sol. No período em que lá estive estava sempre escuro, o que me permitiu passar muitas noites em claro". Mas quando chegava o Sol era outra coisa. "Mais alegria, mas entusiasmo". Os povos nórdicos, apesar de conotados com um temperamento difícil e algo distante, podem, afinal, ser sociáveis. "Tem, no fundo, de haver Sol", solta Susana.
No Porto, o Sol não falta (bem, de vez em quando falta). Susana abre as janelas que delimitam a sala e mostra a sua dimensão. "Temos aproveitado este espaço para intensificar as nossas actividades, temos aproveitado os últimos tempos para realizar um conjunto de conversas a que chamamos 'Recursos Humanos', que consiste em convidar quatro pessoas de áreas diferentes para partilharem connosco o que estão a fazer actualmente. Pessoas que na sua grande maioria não se conhecem, que vamos encontrando no dia-a-dia, com quem trocamos um 'olá', pessoas que sabemos estar a investigar ao nível de mestrados e doutoramentos. Andamos interessados em saber o que andam a descobrir, queremos acompanhar tudo". A primeira foi em Julho, a segunda, em Novembro, a terceira ainda não tem data definida. "Queríamos fazer esta actividade de dois em dois meses, mas convém não intensificar demasiado, porque é preciso um espaço para descansar". A não esquecer: "a Sala" é a sala da casa da Susana.

Laboratório de experiências
A sala não tem muito mobiliário. "Tenho um sofá, uma televisão e uma cómoda para a televisão, basicamente. Como é também um espaço de ensaio, tenho algumas guitarras e amplificadores" (ver coluna). Tudo o resto surge por acréscimo, "as letras nas paredes são resquícios da última performance da Amarante e Ana Deus, incluída no TRAMA deste ano", refere. As coisas vão mudando – Susana não gosta do termo "mutável" para caracterizar "a" sua "Sala" –, as coisas aparecem e desaparecem num instante. "Geralmente quem limpa as coisas no final são os artistas, a mim cabe-me tirar e repor as minhas coisas". Do que foi, ficam as fotografias. "Vou documentando tudo o que se passa por aqui, até porque é importante para o doutoramento que estou a desenvolver em arte contemporânea e sobre a performance em Portugal. Este espaço serve como um laboratório de experimentação e ajuda-nos a perceber o que se faz actualmente. Ajuda-me a perceber como o espectador pode ser incluído na performance". Ou a forma como deve ser incluído.

Público reduzido
Para além da sala, Susana permite o acesso à cozinha – "para beber alguma coisa, um chá, um café, uma cerveja" – e à casa de banho – "os espectáculos geralmente atrasam, ou porque os artistas demoram a montar o espaço, ou porque se espera por mais público". Restrito, "o quarto e uma das casas de banho". É a parte mais pessoal da casa.
O público tem aderido a conta-gotas, os folhetos de promoção dos espectáculos não são muitos, o boca-a-boca vai funcionando dentro da medida possível. Medida que, afinal, não é grande. "Aparecem sempre as mesmas pessoas. No TRAMA – Festival de Artes Performativas apareceu mais público, mas são sempre os mesmos. São os amigos dos amigos".
Não há placas de néon a anunciar o lugar. Não está assinalado nas janelas o que faz dentro daquelas paredes. Não tem um blogue onde possa difundir a programação do local. "Os meus amigos têm pressionado para eu criar um, mas eu não gosto de blogues. Já me disseram que é possível criar um sem possibilidade de comentários". Ri. Não gosta de comentários. Diz que as pessoas se perdem em comentários absurdos. Prefere conversas cara-a-cara. Tal como os espectáculos intimistas da sua sala de estar.
Não há placas de néon a anunciar o lugar. Não está assinalado nas janelas o que faz dentro daquelas paredes. Não tem um blogue onde possa difundir a programação do local. "Os meus amigos têm pressionado para eu criar um, mas eu não gosto de blogues. Já me disseram que é possível criar um sem possibilidade de comentários". Ri. Não gosta de comentários. Diz que as pessoas se perdem em comentários absurdos. Prefere conversas cara-a-cara. Tal como os espectáculos intimistas da sua sala de estar.

texto: José Sá Reis (in O Primeiro de Janeiro)
fotografia: Jorge Garcia Pereira, Porto 2007
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Thursday, 10 January 2008

E eu que não vejo?



Jorge Garcia Pereira
fotografia: Portugal (Porto), 2008
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Uma torrada e meia-de-leite.



Final de tarde, a escuridão deixa de marcar o tempo lá fora, a fome apodera-se e faz-me calcorrear os sujos passeios até a uma mesa de café. O ambiente frio propõe o de sempre, uma torrada e meia-de-leite descafeínada com leite frio. Já me disseram que isso de beber café com leite é como um prego para o fígado, asseguro-me que o meu não tem jeito de cair de tão pregado que se encontra.
Pouco tempo depois chega o empregado, gestos seguros de quem serve à uma vida, distintivo na lapela Mário deixa o pedido sobre a mesa com os seus votos de bom apetite 'Bamos a isso entôm'.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Portugal (Porto), 2008
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Thursday, 03 January 2008

Proibido Fumar.



Ora aí está uma fotografia que sempre desejei, o local onde costumo lanchar perto do escritório, sem fumo. Trata-se de uma padaria numa zona periférica da cidade, cheia de bairros outrora povoados de familias operárias vindas do interior e que em cada metro quadrado ocupavam com uma pequena horta. Hoje os filhos dos mesmos continuam a povoar estes mesmos bairros, as fábricas deslocaram-se e os seus filhos já nem da horta sabem cuidar acomodando-se ao subsídio, ao preço de não trabalhar. Agostinho da Silva defendia que estes, os homens de ócio total, os desempregados, são o homem do amanhã, livre no tempo para executarem tudo na vida que desejam verdadeiramente fazer. Mas ao contrário do homem do futuro de Agostinho da Silva, os filhos dos operários dos bairros à volta da padaria onde costumo lanchar, não passam o dia a fazer o que verdadeiramente procuram gostar, limitam-se a passar o tempo, até ao passado dia 31 preferencialmente a fumar de manhã à noite por todos os cafés e padarias da zona.
Para além de não ter que escolher o local menos poluído para lanchar, passei a acreditar que pelo menos os filhos dos operários que vivem na zona onde trabalho terão que mudar de estilo de vida.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Portugal (Porto), 2008
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