Friday, 29 June 2007

Pavilhão em Santiago.

Nos dois passados anos tive o privilégio de trabalhar com um dos melhores Arquitectos Portugueses da sua geração. Como se não fosse já de si enriquecedor, ganhei um amigo. Mas não é da pessoa em si que vos quero falar, é de uma das suas obras, o Pavilhão em Santiago. Adjacente a uma construção pré-existente e em ruína, foi proposto ao Arqº Francisco Portugal e Gomes o projecto de um Pavilhão autónomo onde fosse possível habitar, tendo o carácter de refúgio de fim-de-semana. O resultado (aqui na imagem ainda numa fase estrutural) é extraordinário. Uma opção com o rigor geométrico da antiguidade grega, aliada sempre a uma criteriosa e sensível escolha de materiais, num total respeito pelas ancestrais técnicas construtivas aliadas a uma sofisticada implementação das mesmas, resultou num edifício bem proporcionado, funcional e que nos faz perder em cada recanto tais são as diversas opções encontradas.

Tenho fotografado o evoluir da construção deste pequeno e complexo Pavilhão, gosto particularmente desta imagem por demonstrar de um modo claro o rigor que vos falo e dois dos que também ajudam a fazer do sonho realidade.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Portugal (Santiago, Penafiel), 2006
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Wednesday, 20 June 2007

Por La PanAmericana...

Idealizada na V Conferência Internacional nos Estados Unidos da América, A PanAmericana é um dos maiores sistemas rodoviários do planeta com cerca de 25.750 km de extensão, cruzando 13 países da costa ocidental do continente americano. Ainda não totalmente concluída, a estrada encontra no Panamá uma zona de reserva ecológica de grande sensibilidade que tem tido fortes opositores à construcção naquele território da ligação Norte-Sul da estrada, não querendo cometer aí o mesmo erro dos governos Peruano e Brasileiro que em 2005 acordaram rasgar a amazónia com um eixo rodovário Este-Oeste que terá certamente forte impacto negativo naquela zona do globo.

Nesse mesmo ano percorri cerca de 1000 km da PanAmericana no Perú, tendo sido uma experiência extraordinária dada a capacidade de alteração de ambientes que a estrada e seus utilizadores proporcionam. Desde perigosas curvas no litoral inóspito do Pacifico, a desfiladeiros que abraçam pequenos oásis de fértil agricultura num território maioritariamente desértico, à passagem vertiginosa de camiões e auto-carros em mau estado de conservação, ao cruzamento de pequenos povoados repletos de lombas com cerca de 50 cm de altura, até ao cruzamento criminoso pelas linhas de Nazca (só depois da descoberta das linhas de Nazca por Reindel e Isla se deu conta que a estrada tinha destruído parcialmente alguns desses geoglifos nas pampas de Jumaca), a PanAmericana no Perú proporciona uma excelente viagem a quem prescinde facilmente das repetitivas férias em resorts de luxo que exploram a mão-de-obra e as potencialidades de povos monetariamente mais fracos.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Perú (entre Lima e Nazca), 2005

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Thursday, 14 June 2007

Trienal de Arquitectura de Lisboa.



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Com o infeliz nome de 'Vazios Urbanos' (há vazios na urbe para um arquitecto?) estará patente até dia 31 de Julho em Lisboa mais uma das vagas de popularismo arquitectónico que o actual 'star system' tem fomentado. Organizada pela Secção Regional Sul da Ordem dos Arquitectos Portugueses esta mostra pretende ser uma referência na agenda cultural da arquitectura globalizada. Invariavelmente nestas ocasiões promove-se erradamente o arquitecto e marginaliza-se o verdadeiro utilizador da arquitectura colocando-o como mero espectador. Não se trata de colocar a arquitectura ao serviço e acessível a todos, mas pelo contrário estas mostras têm uma capacidade visceral de pretender colocar 'todos' ao serviço do arquitecto estrela.

O vídeo que vos apresento vai estar na trienal de Lisboa e foi realizado para a bienal de Veneza de 2003, tratando-se do desenvolvimento de um esquisso da autoria do Arquitecto João Pedro Serôdio sobre a Sub-Unidade 3 da Universidade de Coimbra (obra em curso).

Jorge Garcia Pereira
vídeo: Portugal (Porto), 2003

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Saturday, 09 June 2007

7.6.7.

 


Para os amantes dos dias perfeitos nada melhor que uma união entre Buñuel e Deleuze. Um talvez não falasse muito do outro, o outro disse um dia que o outro dos dois seria, a par de Eric Von Stroheim, 'le plus grand créateur du naturalisme au cinéma'. Confesso que é uma tortura a minha presença fisica num casamento, e só mesmo o visionamento no dia seguinte de Le fantôme de la liberte de Luís Buñuel me faça voltar ao meu estado normal; tranqüilo, pensativo, acreditando que há vida para além dos humanos. Mas não é desta união que se refere a imagem que vos apresento e muito menos este Luis.
Quando se trata de amigos especiais a verdade é que pior do que estar nos seus casamentos, é não estar presente nos seus casamentos. Vai daí, visto-me a rigor (não muito para não ofuscar o noivo), calço os sapatos mais limpos da prateleira e aí vou disposto a passar mais 12 horas da minha vida a falar de trivialidades com outras tantas pessoas bem mais importantes para mim que as conversas que acabamos por ter, ladeando mesas recheadas de iguarias servidas em travessas de talha dourada.
Parabéns à Anabela e ao Luís, foi bonito de se ver o final de um dia tão especial para eles.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Portugal (Burgães), 2007

 

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Friday, 01 June 2007

Dia Mundial da Criança.

Por norma sou avesso aos 'dias mundiais'. Todos os dias são mundiais, se há algo que está bem distribuído por todo o planeta são os dias. Mas hoje é um pouco especial, consegue ser dos poucos ‘dias mundiais’ em que todo o mundo fala um pouco mais do melhor que há em todos nós, as Crianças.
Há dados impressionantes sobre as crianças no mundo, umas chegam a valer uns míseros 35€ para adopção ou selvático tráfego de órgãos para salvar meninos de privilegiadas famílias, outras cêntimos para abusos físicos e psicológicos de toda a ordem. Mas também há projectos que lutam para que a base do desenvolvimento de um ser humano (o conhecimento), chegue a crianças cujos Estados não se interessam por elas apesar de enriquecidos com as matérias primas dos seus solos.
Um desses projectos foi-me dado a conhecer esta semana através de uma reportagem televisiva, o Dhaka Project. É um projecto notável, que contraria por absoluto a ideia generalizada e conformista implantada no mundo ocidental de que sozinhos nada podemos fazer para mudar o mundo. Maria é uma portuguesa que trabalha no Dubai, aufere de um ordenado de aproximadamente 2000€ (nenhuma fortuna), e consegue por si manter um projecto no Bangladesh que mantém crianças na escola, fornece campanhas de vacinação, faz formação e ajuda para melhorar a saúde pública em comunidades pobres entre tantas outras coisas. Maria, uma mulher determinada e de sangue quente lusitano, é uma daquelas pessoas que todos deveríamos conhecer.
A imagem que vos apresento foi tirada num bairro de extrema carência numa pequena vila no Senegal. Sobre esta menina pouco vos sei dizer, embora ainda hoje ela conviva no meu imaginário mesmo sem eu já fazer parte do dela. Não sei o seu nome, não sei o que faz, não sei como está, sei que guardo ainda hoje na memória os breves instantes em que nos cruzamos e que no meio do grupo dos seus amigos se destacou e me disse, com o seu olhar, que no meio de tanta carência se sentia livre e feliz.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Senegal (Saly-Portudal), 2004 
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