Monday, 23 July 2007

3 fragmentos em Congonhas.


1- Tenho com São Paulo e o Rio de Janeiro uma proximidade difícil de explicar. Física não é certamente, porque vivo a mais de 7000 km de distância destas duas cidades, em relação ao Rio é fácil de explicar, é lá onde vive a minha família, enquanto em São Paulo é a cidade onde vive o Brasil que eu próprio conquistei, a dos amigos. Por isso que o acidente da passada semana em Congonhas teve em mim uma sensação de aproximação estranha, como se estivesse a acontecer perto de mim, aos meus. Localizado numa zona periférica a sul da cidade o aeroporto de Congonhas, inicialmente construído com uma pequena pista de aterragem em 1940, rapidamente se viu rodeado de construção dado o enorme êxodo urbano existente em particular nos anos 60 e 70 nas grandes cidades brasileiras, dando origem a uma série de problemas relacionados com a segurança e dificuldades de ampliação. Mas é precisamente o facto de actualmente o aeroporto se situar em pleno coração do extenso tecido urbano da cidade Paulista, rodeado de torres, arranha-céus de escritório repletos de computadores e gente bem vestida para os quais se pode espreitar numa actitude de voyarismo em pleno voo, que torna inesquecível a experiência de aterrar neste local.

2- Entro no aeroporto Santos Durmond em plena baia de Guanabara no Rio de Janeiro, dirijo-me a um posto da companhia Gol à procura de um voo em conta com destino a São Paulo. No balcão uma jovem menina vestida a rigor, ar simpático e voz cordial, demonstra-me atenção à qual acedo pedindo um bilhete para São Paulo. A cara desfigura-se, o olhar luzente ofusca-se, dando lugar num tom rude e seco a uma simples pergunta ‘que vai vocês fazer nesse lixo?’. De seguida e em resposta a uma nova pergunta, peço lugar de janela do lado direito do avião voltando a ganhar a simpatia da jovem carioca, ao dizer-me ‘estudou bem a viagem’ se apercebeu que era minha intenção ter lugar privilegiado no avião para sobrevoar o Pão-de-Açucar com o Cristo Redentor em plano de fundo e as linhas de areia de Ipanema já bem distantes dos meus pés no momento da partida. Começava assim a minha primeira visita a São Paulo.

3- O habitual espírito mórbido com que por vezes os autores de opinião nos brindam, obrigaram-nos já a ter que ouvir uma série de disparates de comparações entre o aeroporto de Congonhas e o da Portela em Lisboa. Eu que não percebo nada de tráfego aéreo, apenas conheço as áreas onde ambos os aeroportos se situam, vejo que comparar o caso de Lisboa a São Paulo é tão ridículo que nem encontro metáfora que a iguale. Contudo, e para colocar rapidamente ponto final em tanta estupidez mórbida penso que bastaria referir que a maior pista de Congonhas tem 1900 metros e a pista mais pequena da Portela tem 2400 metros, e que não consta haverem problemas de drenagem nas pistas da Portela. O que me tem deixado intrigado em toda esta controvérsia nos últimos tempos sobre a segurança no aeroporto da Portela é o facto de nunca mais se ter ouvido falar do grave problema de segurança existente no aeroporto Francisco Sá Carneiro no Porto, cujo desenho das pistas obriga a um constante cruzamento das aeronaves pela pista principal. Situação idêntica provocou ainda há bem poucos anos um acidente de proporções desastrosas no aeroporto de Malpenza em Milão mergulhando este aeroporto de Milão num percurso descendente de perca de competitividade. Talvez seja este a intenção da governação centralista que vivemos em Portugal para que a Ota não seja um fiasco, aniquilando a qualquer custo a concorrência sobre o próximo ‘elefante branco’ da heróica história lusa.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Brasil (São Paulo), 2003
Posted by loucomotiva at 02:44:26 | Permanent Link | Comments (1) |

Wednesday, 18 July 2007

Wonderland.


Ontem no Passos Manuel no Porto houve lugar a sessão dupla de DJ. Juntamente com a Susana Chiocca estive a colocar alguns dos meus cd's no som deste já emblemático espaço da noite portuense. A audiência foi variando, inicialmente apenas a bar woman nos escutava, tal era o interesse por parte dos arquitectos que visitaram ontem o Passos Manuel nas conferências Wonderland em curso. Pouco depois já eram 5, os que entre cansados de tanta arquitectura e os que apenas procuravam um copo cheio nos ouviam. Por fim, e lembrando apenas o grande fluxo causado pelo intervalo das conferências, poderíamos dizer que um selectivo e privilegiado grupo de frequentadores puderam ouvir o melhor que tínhamos para dar até às 3 da matina. Posso garantir-vos que a Susana também tem cd's originais!

 

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Portugal (Porto), 2007

 

Posted by loucomotiva at 18:27:43 | Permanent Link | Comments (2) |

Tuesday, 10 July 2007

Porto encontra o Cristo.

 

Muito se falou do Rivoli, em particular no Porto.

A táctica é a do costume, cortar financiamentos, deixar as instituições ao deus-dará por um par de anos e por fim, estucada final, fecha-se ou despacha-se a instituição alegando que já não tem qualquer tipo de interesse público. Não tenho qualquer apreço como a direcção do Rivoli tratava o mesmo como se fosse a sua própria casa, nem mesmo como a elite cultural do Porto insiste em voltar sistematicamente as costas para a grande maioria da sua cidade que continua a ser culturalmente fraca e sem grandes oportunidades de sair do marasmo dos bailaricos de bairro e dos centro recreativos locais, mas reduzir a oferta cultural no centro do Porto ao teatro de revista deixa-me muito preocupado.

Ora arranjou-se um Cristo para o Rivoli, como já se tinha arranjado para o Sá da Bandeira, para o Batalha, para a maioria da agenda do Coliseu, e ficou o centro do Porto reduzido ao espectáculo de revista. O parque Meyer entrou em estado de decadência crónica e eis que o teatro de revista vem de malas e bagagens até ao Porto, até ao triste Porto rodeado de pacóvios que pertencem ainda a um país mergulhado na nostalgia de um pequeno ditador.

 

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Portugal (Porto), 2007
Posted by loucomotiva at 17:06:19 | Permanent Link | Comments (5) |