3 fragmentos em Congonhas.
1- Tenho com São Paulo e o Rio de Janeiro uma proximidade difícil de explicar. Física não é certamente, porque vivo a mais de 7000 km de distância destas duas cidades, em relação ao Rio é fácil de explicar, é lá onde vive a minha família, enquanto em São Paulo é a cidade onde vive o Brasil que eu próprio conquistei, a dos amigos. Por isso que o acidente da passada semana em Congonhas teve em mim uma sensação de aproximação estranha, como se estivesse a acontecer perto de mim, aos meus. Localizado numa zona periférica a sul da cidade o aeroporto de Congonhas, inicialmente construído com uma pequena pista de aterragem em 1940, rapidamente se viu rodeado de construção dado o enorme êxodo urbano existente em particular nos anos 60 e 70 nas grandes cidades brasileiras, dando origem a uma série de problemas relacionados com a segurança e dificuldades de ampliação. Mas é precisamente o facto de actualmente o aeroporto se situar em pleno coração do extenso tecido urbano da cidade Paulista, rodeado de torres, arranha-céus de escritório repletos de computadores e gente bem vestida para os quais se pode espreitar numa actitude de voyarismo em pleno voo, que torna inesquecível a experiência de aterrar neste local.
2- Entro no aeroporto Santos Durmond em plena baia de Guanabara no Rio de Janeiro, dirijo-me a um posto da companhia Gol à procura de um voo em conta com destino a São Paulo. No balcão uma jovem menina vestida a rigor, ar simpático e voz cordial, demonstra-me atenção à qual acedo pedindo um bilhete para São Paulo. A cara desfigura-se, o olhar luzente ofusca-se, dando lugar num tom rude e seco a uma simples pergunta ‘que vai vocês fazer nesse lixo?’. De seguida e em resposta a uma nova pergunta, peço lugar de janela do lado direito do avião voltando a ganhar a simpatia da jovem carioca, ao dizer-me ‘estudou bem a viagem’ se apercebeu que era minha intenção ter lugar privilegiado no avião para sobrevoar o Pão-de-Açucar com o Cristo Redentor em plano de fundo e as linhas de areia de Ipanema já bem distantes dos meus pés no momento da partida. Começava assim a minha primeira visita a São Paulo.
3- O habitual espírito mórbido com que por vezes os autores de opinião nos brindam, obrigaram-nos já a ter que ouvir uma série de disparates de comparações entre o aeroporto de Congonhas e o da Portela em Lisboa. Eu que não percebo nada de tráfego aéreo, apenas conheço as áreas onde ambos os aeroportos se situam, vejo que comparar o caso de Lisboa a São Paulo é tão ridículo que nem encontro metáfora que a iguale. Contudo, e para colocar rapidamente ponto final em tanta estupidez mórbida penso que bastaria referir que a maior pista de Congonhas tem 1900 metros e a pista mais pequena da Portela tem 2400 metros, e que não consta haverem problemas de drenagem nas pistas da Portela. O que me tem deixado intrigado em toda esta controvérsia nos últimos tempos sobre a segurança no aeroporto da Portela é o facto de nunca mais se ter ouvido falar do grave problema de segurança existente no aeroporto Francisco Sá Carneiro no Porto, cujo desenho das pistas obriga a um constante cruzamento das aeronaves pela pista principal. Situação idêntica provocou ainda há bem poucos anos um acidente de proporções desastrosas no aeroporto de Malpenza em Milão mergulhando este aeroporto de Milão num percurso descendente de perca de competitividade. Talvez seja este a intenção da governação centralista que vivemos em Portugal para que a Ota não seja um fiasco, aniquilando a qualquer custo a concorrência sobre o próximo ‘elefante branco’ da heróica história lusa.
fotografia: Brasil (São Paulo), 2003



