Era uma árvore poderosa, marcava claramente o topo da rua onde cresci. Em pequeno diziam-me que se tratava de uma Otília, mas parece-me que tal árvore não existe. Era à sombra daquela gigantesca árvore que brincava no recreio da escola, que esbarrava nos pequenos jogos do que pensávamos ser rugby, cuja idade nos permitia terminar os ensaios em pleno chão de cimento, que trocávamos as bolas de futebol (proibidas pela professora para não incomodar os adultos) por pacotes de leite cheios de ar dos nossos jovens pulmões oferecidos pelo tão generoso Estado democrático.
Há pessoas que nos são importantes na vida, mas há também árvores que o são, e para mim esta era claramente uma das mais importantes.
Ontem, a caminho do almoço que tem sido na companhia do eterno sorriso da Princesa Bebé, deparei com este cenário, dois senhores, em trajes que nos dão um toque de país quase evoluído, terminavam a limpeza daquilo que no dia anterior pensava ser uma rotineira poda, um pouco fora de época pensei posteriormente. A ‘Otília’, que era também o nome de uma professora daquela minha escola com um temperamento um pouco inadequado para crianças de 6 anos, terminou os seus dias, supostamente porque tal como nós não resistiu ao tempo e deixou-se consumir no seu interior pelo cansaço da idade.
Se alguma vez existiu um tipo de árvore chamada Otília, então era aquela e não existe mais.
Jorge Garcia Pereira
fotografia: Porto (Portugal), 2008