Sunday, August 24, 2008

Pequim 2008:


© 2008 KIM KYUNG-HOON - NAIDE GOMES

Ao longo dos últimos dias e aproveitando umas férias forçadas em casa pude seguir em directo muitas das provas destas olimpíadas, nomeadamente a conquista da prata por Vanessa Fernandes, o ouro de Nelson Évora, e o fatídico e último salto de Naide Gomes cujo resultado me fez estar a dar cabeçadas na cabeceira até conseguir adormecer pois nem conseguia imaginar como se sentiria uma das melhores atletas na sua categoria naquele momento. Ao acordar passava pela página do jornal Público dedicada aos jogos para saber da prestação da comitiva portuguesa e saber no imediato o que a Voxx Pop relatava nos seus comentários sobre essas mesmas prestações. No final acabou-se por falar mais do que se disse do que do que se fez, criticando sucessivamente os atletas que acredito que sem excepção deram o seu melhor nas provas em que participaram. De facto ver criticas sobre classificações acima dos 30 melhores da sua modalidade, com os seus dirigentes a não defenderem e protegerem os atletas de todos os ataques prometendo abandono no meio da critica e continuação após o ouro, foram para mim os piores momentos destes jogos. No final fica um saldo positivo de quem realmente conta, dos atletas, que numa comitiva carregada de esperanças (sempre acima da realidade) acabaram por realizar a melhor prestação portuguesa de sempre numa olimpíada contando com uma incansável força anímica e de conforto de alguém que é um exemplo e uma referência no desporto nacional, Rosa Mota.

Aqui deixo alguns dos meus comentários no Público ao longo destas últimas semanas:

Vicente Moura
A ideia que tenho de Vicente Moura é positiva, sem conhecer por dentro o comité olimpico português, o que dá a parecer é que VM conseguiu credibilizá-lo e empolgar o país com esta comitiva antes da partida para Pequim. A meio, e resultado de algumas prestações aquém das expectativas de muitos mas realistas para uma competição desta qualidade, diz terminar um ciclo dentro em breve e todos passamos a achar que era tempo de novos ventos. Agora, e depois de um salto de Nelson Évora que transportou a critica do inferno para o céu, volta atrás esquecendo-se de que a sua continuidade (e bem o sublinhou até então), eram as 4 medalhas e 60 pontos. Mesmo com este 4º extraordinário salto de Nelson Évora ficamos nos 28 pontos, a menos de metade da meta estabelecida por VM. Por mim está na hora de VM sair e só lhe cai mal dar o dito por o não dito, se aqui sempre defendi os atletas o mesmo não fez VM e era sua missão, lamentável. Falou-se de Rosa Mota, a mim parece-me que uma mulher que esteve em Pequim como adepta nº 1 de todos os atletas ao longo das suas provas, motivando-os, gritando, incentivando-os, merece um cargo desta importância.

Nelson Évora
Com a medalha de ouro de Nelson Évora, com a de prata de Vanessa Fernandes mas com Naide Gomes num dia sem tanto azar, com Gustavo Lima a ter a estrelinha que faltou para o tal ponto que o afastou do podium, a tão criticada comitiva portuguesa teria realizado uma das melhores prestações de sempre em termos de medalhas e seria tudo um mar de rosas. Contudo ainda assim penso que se fez uma óptima campanha, com o sucessivo número de atletas portugueses que conseguiram ficar nos 10 primeiros e outros com resultados também muito acima das suas próprias expectativas. Não se merecia tanto barulho ao longo dos Jogos deixando as criticas e opiniões para depois da cerimónia de encerramento. Celebramos sempre antes de ganhar algo que não chegamos a ganhar, como criticamos algo que ainda está por ser concluído, esta cultura tem que ser melhorada. Viva o desporto e parabéns a todos.

Naide Gomes
Foi por mero acaso que acordado liguei a televisão para ver se havia novidades de Pequim e vejo Naide Gomes a preparar-se para saltar, no rodapé verifiquei que já tinha dois saltos nulos e que era o tudo ou nada. Eu próprio fiquei naquele momento sem condições sequer de me sentar no sofa, quanto mais exigir a alguém que saltasse para lá dos 7 metros sem calcar 1mm de uma linha que tinha deitado tudo a perder. No final Naide Gomes não apostou o máximo em si, num gesto de medo que entendi mas que me fez revoltar, ainda mais quando sabia que ela própria jamais voltará a fazer um erro destes. A noite já ía longa e tinha que ir dormir. Fiquei horas a fio a dar cabeçadas na parede do meu quarto sem pregar o olho, Naide Gomes tinha falhado a final para que tanto se tinha esforçado e sofrido ao longo dos últimos anos. No dia seguinte revi um dos saltos nulos e a certeza que o ouro era tão possível fez-me voltar ao interior de Naide Gomes que por felicidade ainda não tinha caído em si. E ela que tanto merecia mais que isto, pela atleta que é, pela mulher que é, por tudo. Espero que em Londres consiga estar ao seu melhor nível e que o destino lhe faça devida justiça. Força e muita coragem.

Gustavo Lima
Gustavo Lima foi 4º o que é um estrondoso lugar. Claro que gostaríamos que viesse com uma medalha para Portugal, até porque todos reconhecemos facilmente que merecia esse tal ponto mágico por tudo o que fez nestes jogos mas acima de tudo por toda a sua carreira e espírito combativo. Hoje li em relação à exposição sobre a vida de Adriano (imperador romano) em Londres que Adriano embora sendo um temível e sanguinário guerreiro combativo também chorava, a força de Gustavo Lima fez-me lembrar um pouco Adriano. Embora entenda perfeitamente que numa cultura como a nossa em que o mérito vive solitário e sem encorajamento gostaria que Gustavo Lima continuasse a competir e a nos orgulhar dele.

Emanuel Silva
35 milésimos de segundo é realmente muito pouco ao contrário de algumas barbaridades que aqui já foram escritas. Aqui em casa acreditamos que Emanuel Silva fosse ainda mais longe dado que fez uma prestação brilhante nestas olimpíadas. Parabéns.

Daniela Inácio
Portugal não é uma potência no desporto mas temos que caminhar nesse sentido, educar os mais novos para que vejam o desporto com alegria e não como um aborrecimento como infelizmente já vem sendo corrente. Vejamos os índices de obesidade entre jovens portugueses e o panorama é assustador, e ouvir de um jovem que não gosta da disciplina de educação física (que deveria existir desde o 1º ano de escola), é chocante. Daí que pessoas como a Daniela Inácio e todos os seus colegas portugueses da comitiva a Pequim são um exemplo a seguir pela sua capacidade de luta e de fazer cada vez melhor. Parabéns Daniela pela prova, só se fala em medalhas e esquecem que ser o 17º melhor no mundo na sua categoria é já uma enorme proeza. Também quero ser o 17º melhor do mundo na minha profissão. Parabéns.

Marco Fortes
Tem que se parecer, não ser! Infelizmente parece ser este o mote de tudo o que envolve os Jogos Olímpicos dado ocorrerem num país que se preocupa mais que tudo em parecer qualquer coisa que não a própria realidade. Marco Fortes não pareceu, foi. Foi um atleta despreocupado após a sua prova que teve uma boa dose de humor na sua despedida que cai sempre mal aos políticos, que tanta importância dão ao parecer. Estou certo que no momento da prova Marco Fortes deu o melhor de si naquele momento, e é isso que me interessa. E que numa próxima oportunidade que tenha em competir numa olimpíada regule antecipadamente o seu sono, pois estou certo que aprenderá qualquer coisa com tudo isto.

Texto: Jorge Garcia Pereira
Fotografia: Kim Kyung-Hoon

Posted by loucomotiva at 16:25:35 | Permalink | Comments (1) »