Lisboa, alguns Lisboetas e o centralismo:
É corrente ouvirmos falar do centralismo existente na política em Portugal. Como cidadão que não vive na capital sinto no meu dia-a-dia os efeitos dessa política e assisto ao marasmo generalizado do quotidiano da minha cidade desprovida que está, há muito, de investimentos urgentes. Dois casos paradigmáticos do quanto prejudica o governo central a minha cidade são o desinvestimento em ligações urgentes previstas para a linha do Metro do Porto e, para que não fosse suficiente o corte de verbas, o governo central chega a bloquear o dinamismo privado no que ao aeroporto Francisco Sá Carneiro diz respeito.
Em visita à capital, onde visitei a exposição patente na LX-Factory (mas que desagradáveis intervenções têm sido feitas neste antigo espaço industrial chegando a ridicularizar aquele património), do arquitecto Suíço Peter Zumthor, pensei que não são só os que vivem fora da capital que sofrem com o centralismo.
Chegar a Lisboa vindo do Porto sempre foi uma experiência feia, recordo-me em pequeno dos gigantes bairros de lata da Portela agora transformados em torres habitacionais descaraterizadas que me deixam sempre com um pensamento nostálgico sobre todas aquelas pessoas que ali vivem. Que beneficio terá um Português que viva naqueles aglomerados habitacionais que se estendem de Vila Franca de Xira até bem no coração de Lisboa de viver perto do centralismo? Torres de 12 e mais pisos, de arquitectura duvidosa, fraca qualidade constructiva, alienadas de todos os centros culturais, mal servidas de transportes públicos e redes de acesso. O centralismo vive desta gente, explora esta gente, humilha-os. Viver na capital e perder 4 horas do seu dia no simples gesto de ir trabalhar, numa actitude de sobrevivência e dignidade deveria, aos políticos e lideres de decisão que por ali passam todos os dias entre as suas mansões e faustos escritórios, fazê-los pensar um pouco e tudo fazer para melhorar a vida de todos eles, de todos nós.
A ideia que o resto do país tem de Lisboa é de ser o lugar de todos os investimentos, onde vivem os grandes administradores de empresas, dos políticos com pensões criminosas, do centro de toda a cultura, de toda a documentação e espólio cultural do país, de facto isso também é Lisboa. Mas a Lisboa da grande maioria é pobre, não usufrui de estar no centro com maior índice de rendimento do país, se fala mal do resto do país é por não tem dinheiro para o conhecer. Chegar a Lisboa vindo de Norte continua a ser feio, muito feio, triste, muito triste, e continua a ser possível chegar bem ao centro de Lisboa rodeado de pobreza. A mim, que tanto gosto daquela cidade, deixa-me triste.
Faz exactamente hoje 861 anos que D. Afonso Henriques conquistava Lisboa aos mouros. Ironicamente encontrou uma cidade maioritariamente cristã, sem o tesouro prometido e que desde ai ficou à mercê da estupidez ‘cruzada’.
Jorge Garcia Pereira
Fotografia: Lisboa (Portugal), 2008