Monday, 14 January 2008

Uma 'sala' de oportunidade.


13 de Janeiro de 2008
O Porto tem conhecido, e apesar da falada crise, o surgimento de espaços de produção cultural nos sítios mais improváveis. "A Sala", de Susana Chiocca, é um desses exemplos.Em plena Baixa, na sua própria casa.

Uma sala na Baixa da cidade do Porto não é igual a uma sala na baixa da cidade norueguesa de Trondheim. A começar pela temperatura, climatização e isolamento efectuado, a terminar na vista da janela e na luz que irradia do exterior (ou a falta dela durante grande parte do ano). A sua sala hoje, pelo menos, não é igual à que era. "Em Trondheim" – que deve ler-se de uma forma quase imperceptível, com uma vocalização muito fechada, qualquer coisa como trundaim – "a minha sala tinha ar condicionado, 25 graus de temperatura ambiente e estava permanentemente com a luz ligada, pois durante o tempo em que lá estive era noite quase todo o dia. Aqui, em Portugal, as coisas são diferentes, na minha sala faz frio, não tenho aquecimento central, mas tenho muita luz a entrar pelas janelas". A sala é velha. As janelas deixam entrar o ar frio nesta época do ano, mesmo quando estão fechadas. Mas a casa, afinal, não é sua. Queria que fosse sua, mas ainda não é sua. Se calhar nunca vai ser sua. Mas a sala é sua. Não o espaço físico, mas "A Sala". Essa é sua. Agora é sua, já a dividiu com o ex-companheiro de casa António Lago, mas hoje é sua. Apenas sua. E recebe quem quer e mesmo quem não quer. Os amigos da Susana, os desconhecidos da Susana, se calhar aqueles que não gosta tanto mas de quem se tenta forçosamente abstrair em prol da arte.
A "Sala" (com aspas) foi oficialmente aberta em 2006, em Abril, quando o frio já não cansa a alma. "Eu e o António [Lago] vivíamos juntos em Lisboa e tínhamos um pequeno sótão. Pensámos fazer uma coisa do género no local. Depois viemos para o Porto, para esta casa, reparamos que o espaço era amplo, arejado, e na maioria das vezes não o utilizávamos para o fim a que estava destinado. O António tinha um projecto musical na altura e era onde costumava ensaiar. A nossa ideia foi sempre abrir aquele local às pessoas, receber as pessoas e ensinar-lhes a gostar da arte". Da ideia ao efeito foi um instante. "Abrir a sala não é uma ideia original". Se calhar, no Porto, em Portugal, é. "Se calhar é, não sei". Susana Chiocca, a interlocutora, ri muito enquanto fala. Provoca trejeitos e sons numa performance constante. "Achas que a vida é uma performance constante? Eu acho que não. Depende. Há dias em que acordo de mau humor. Não é sempre como hoje". O "hoje" representa um dia de boa disposição. Tentamos adivinhar como será ela mal-disposta. E não conseguimos.

Conversas pessoais
Susana Chiocca tem 33 anos camuflados num sorriso pronto, vem das artes plásticas, tem formação superior pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto na área da escultura. Esteve durante quatro meses no frio da Noruega, a estudar, a aproveitar novos mundos que se abriam à sua forma de ver a arte, um tempo que lhe permitiu dar um novo significado… ao Sol. "Era extraordinário ver a alegria e boa disposição das pessoas quando surgia o Sol. No período em que lá estive estava sempre escuro, o que me permitiu passar muitas noites em claro". Mas quando chegava o Sol era outra coisa. "Mais alegria, mas entusiasmo". Os povos nórdicos, apesar de conotados com um temperamento difícil e algo distante, podem, afinal, ser sociáveis. "Tem, no fundo, de haver Sol", solta Susana.
No Porto, o Sol não falta (bem, de vez em quando falta). Susana abre as janelas que delimitam a sala e mostra a sua dimensão. "Temos aproveitado este espaço para intensificar as nossas actividades, temos aproveitado os últimos tempos para realizar um conjunto de conversas a que chamamos 'Recursos Humanos', que consiste em convidar quatro pessoas de áreas diferentes para partilharem connosco o que estão a fazer actualmente. Pessoas que na sua grande maioria não se conhecem, que vamos encontrando no dia-a-dia, com quem trocamos um 'olá', pessoas que sabemos estar a investigar ao nível de mestrados e doutoramentos. Andamos interessados em saber o que andam a descobrir, queremos acompanhar tudo". A primeira foi em Julho, a segunda, em Novembro, a terceira ainda não tem data definida. "Queríamos fazer esta actividade de dois em dois meses, mas convém não intensificar demasiado, porque é preciso um espaço para descansar". A não esquecer: "a Sala" é a sala da casa da Susana.

Laboratório de experiências
A sala não tem muito mobiliário. "Tenho um sofá, uma televisão e uma cómoda para a televisão, basicamente. Como é também um espaço de ensaio, tenho algumas guitarras e amplificadores" (ver coluna). Tudo o resto surge por acréscimo, "as letras nas paredes são resquícios da última performance da Amarante e Ana Deus, incluída no TRAMA deste ano", refere. As coisas vão mudando – Susana não gosta do termo "mutável" para caracterizar "a" sua "Sala" –, as coisas aparecem e desaparecem num instante. "Geralmente quem limpa as coisas no final são os artistas, a mim cabe-me tirar e repor as minhas coisas". Do que foi, ficam as fotografias. "Vou documentando tudo o que se passa por aqui, até porque é importante para o doutoramento que estou a desenvolver em arte contemporânea e sobre a performance em Portugal. Este espaço serve como um laboratório de experimentação e ajuda-nos a perceber o que se faz actualmente. Ajuda-me a perceber como o espectador pode ser incluído na performance". Ou a forma como deve ser incluído.

Público reduzido
Para além da sala, Susana permite o acesso à cozinha – "para beber alguma coisa, um chá, um café, uma cerveja" – e à casa de banho – "os espectáculos geralmente atrasam, ou porque os artistas demoram a montar o espaço, ou porque se espera por mais público". Restrito, "o quarto e uma das casas de banho". É a parte mais pessoal da casa.
O público tem aderido a conta-gotas, os folhetos de promoção dos espectáculos não são muitos, o boca-a-boca vai funcionando dentro da medida possível. Medida que, afinal, não é grande. "Aparecem sempre as mesmas pessoas. No TRAMA – Festival de Artes Performativas apareceu mais público, mas são sempre os mesmos. São os amigos dos amigos".
Não há placas de néon a anunciar o lugar. Não está assinalado nas janelas o que faz dentro daquelas paredes. Não tem um blogue onde possa difundir a programação do local. "Os meus amigos têm pressionado para eu criar um, mas eu não gosto de blogues. Já me disseram que é possível criar um sem possibilidade de comentários". Ri. Não gosta de comentários. Diz que as pessoas se perdem em comentários absurdos. Prefere conversas cara-a-cara. Tal como os espectáculos intimistas da sua sala de estar.
Não há placas de néon a anunciar o lugar. Não está assinalado nas janelas o que faz dentro daquelas paredes. Não tem um blogue onde possa difundir a programação do local. "Os meus amigos têm pressionado para eu criar um, mas eu não gosto de blogues. Já me disseram que é possível criar um sem possibilidade de comentários". Ri. Não gosta de comentários. Diz que as pessoas se perdem em comentários absurdos. Prefere conversas cara-a-cara. Tal como os espectáculos intimistas da sua sala de estar.

texto: José Sá Reis (in O Primeiro de Janeiro)
fotografia: Jorge Garcia Pereira, Porto 2007
Posted by loucomotiva at 12:43:25 | Permanent Link | Comments (0) |
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