Não batam na Professora:

Tem-se, na minha opinião, dito uma série de disparates sobre o que se passou numa sala de aula da Escola Secundária Carolina Michaëlis no Porto. A ostracização da aluna em público, uma jovem adolescente que, mesmo tendo demonstrado uma enorme falta de respeito com uma sua professora, parece-me um absurdo e de uma injustiça individual generalizada.
Estudei numa escola de fama duvidosa no que diz respeito ao seu ambiente. Localizada numa artéria de um dos bairros mais problemáticos da cidade, a Escola Secundária do Cerco do Porto era, no meu tempo, maioritariamente formada por alunos oriundos de zonas periféricas da cidade, alguns de famílias humildes, onde a educação dos seus filhos era muita das vezes deixada a cargo dos avós, mais frágeis às exigências dos seus netos, e de famílias de classe média bem sucedidas e que confiavam ao Estado a instrução dos seus filhos. Posso garantir que a grande maioria dos meus colegas de escola seguiram os seus estudos até ao ensino superior, alguns deles sendo alunos de referência nas suas academias tendo ficando inclusive a leccionar nessas mesmas academias. É verdade que não havia na Escola Secundária do Cerco do Porto muita gente do próprio Bairro Cerco do Porto, a esses o Estado tinha permitido que se deixassem ficar pela Escola Preparatória com o mesmo nome até que desistissem e se rendessem ao trabalho precário ou ao tráfego.
Ora, num ambiente típico de escola secundária, havia no Cerco do Porto, como em todas as outras escolas da cidade, alguns alunos que conseguiam levar alguns professores ao desespero, arrancando gargalhadas a todos os seus colegas de turma, colegas esses que foram então adolescentes e que, de uma forma ou de outra, ajudaram então na humilhação de alguns dos seus professores. Havia contudo outros professores a que isso não acontecia, professores exemplares, que não se transformavam também em adolescentes ao mínimo problema, leccionavam, ensinavam, motivavam e praticamente todos (há sempre um perdido), lhes tinham respeito e, acima de tudo, admiração e gratidão.
Este cenário repete-se todos os anos, em todas as gerações, não é esta que é pior que a minha, não foi a minha pior que anterior, bem pelo contrário. Acredito que a geração desta adolescente que sentiu que tinha autoridade sobre a sua própria professora, será ainda melhor que a minha, e cenas como esta sempre existiram e voltarão a existir, num sistema de ensino tão vasto, finalmente tão democrático.
Ouvir na televisão debates de gente mimada, falando dos seus colégios de excelência, que se entrava por ser menino ou menina de famílias de tradição (vergonhosas situações estas que ainda acontecem em escolas Públicas portuguesas, em que se instalam os meninos de famílias 'bem' em escolas tipo e turmas protegidas), crucificando uma jovem adolescente como se ela fosse a imagem e responsável de tudo o que vai mal na sociedade.
Jorge Garcia Pereira
fotografia: Porto (Portugal), 2008

O que mais me irrita até nem é a opinião pública, esse bicho de fraca memória e ainda pior dialéctica, mas o que ouço de professores de velha guarda, dos que já ensinam desde o PREC, jurando a pés juntos que, realmente, agora é que está mau. Mas andaram enfiados em que buraco, estes imbecis? Há cinema de 1955 a abordar só esse assunto. Até o Aniki Bóbó lhe toca e foi realizado em 1942. Enfim... (Comment this)