Os Patinhos:
E, boa noite.
Jorge Garcia Pereira
Jorge Garcia Pereira
Eurico Figueiredo é, para além de meu amigo, fotógrafo.
Na difícil tarefa que é caracterizar profissionalmente um amigo, pois tendemos sempre para o exagero de adjectivos faustos e sentimentais, diria em relação ao Eurico que ‘é daqueles que sabe como colocar um rolo numa hasselblad’, deixando com esta frase espaço para a viagem nos variadíssimos eufemismos que daqui se possa extrair.
De há uns anos para cá não tem sido fácil convencê-lo de partilhar com o público o seu vasto trabalho, daí que é bom divulgar que inaugurará neste próximo dia 7 de Março no espaço Ana Santos, em Matosinhos, uma exposição.
Espaço Ana Santos. Rua Álvaro Castelões 172, Matosinhos (Junto ao Mercado)
Deixo-vos com o convite e com o habitual abraço com diafragma a 5.6 à Eurico.
Jorge Garcia Pereira
CONCURSO PÚBLICO DE 9 DIAS:
Não foi surpreendente o conhecimento dos moldes da divulgação de mais um concurso público para um projecto de loteamento lançado por uma Camara Municipal Portuguesa. Tratou-se de mais um concurso público para um projecto de loteamento cujo processo é humanamente impossível de concluir no prazo pretendido o que faz transparecer que tal concurso já era do conhecimento de uma equipa de projectistas que assim foram os únicos a concorrer. Surpreendente foi a acção judicial lançada pela Ordem dos Arquitectos a impugnar este concurso. Será esta atitude uma nova forma de intervenção da Ordem à pouca vergonha que se passa no mundo da construção em Portugal que tanto tenho desejado?
ABATE DE 800 SOBREIROS:
Mais uma das heranças que o Sr José Sócrates e seus compadres deixarão a Portugal. Em troca de mais de 800 sobreiros assassinados numa manhã antes de um despacho já por eles conhecidos do tribunal considerando ilegal esse mesmo abate, o Sr José Sócrates deixará mais um complexo imobiliário e um estádio de futebol. Em plena suspeição do caso Freeport, sobre a qual a Quercus tem tido uma atitude irrepreensível e que me deixa enquanto seu sócio extremamente satisfeito, mais um escândalo para os Portugueses avaliarem em ano de eleições.
Jorge Garcia Pereira
Costumo comparar Manoel de Oliveira e Álvaro Siza. Ambos nascidos no ambiente portuense são sobejamente reconhecidos nas suas áreas, tendo ambos recebido dos mais importantes galardões internacionais. No seu país a falta de cultura não lhes permitiria esse reconhecimento. Constantemente criticados, incompreendidos, solta-se no entanto um orgulhosinho pacóvio do português quando os veem nas suas distinções mundo fora. Muitos nunca viram um filme completo de Manoel de Oliveira contudo cheios estão de entendimento dos mesmos para deles fazerem troça. De Siza usam a mesma dose de humor, de gozo, de critica, de nojo.
Ambos venceram pela preserverância, pelo acreditar nas suas convicções apesar de terem crescido numa sociedade castradora de mérito, de qualidade, preenchida de uma inveja visceral e doentia que critica com a mesma facilidade com que se esvazia da capacidade de produzir, de fazer algo por si próprio e pela comunidade onde se insere.
Contudo Portugal é um pedaço de terra de onde sai gente notável, que nos faz sentir bem por sermos humanos. São poucos os que nos fazem acreditar que é possível fazer bem, sermos verdadeiramente felizes com o que fazemos, mas suficientes para que amanhã acorde com a mesma vontade de viver aqui da de hoje.
E o sol que tanto nos acompanha por estas paragens.
Na última passagem por Londres aprendi que nunca devemos perder a oportunidade de visitar o museu da história natural no caso da sua existência na cidade que visitamos. Infelizmente o único museu da história natural existente em Portugal era em Lisboa ardeu em 1978 e nunca nada foi feito para o reabrir.
No entanto, e para celebrar esta data importante no mundo naturalista, inaugura hoje na Fundação Gulbenkian uma das maiores mostras de sempre dedicadas à vida e obra de Charles Darwin.
A não perder certamente:
http://www.gulbenkian.pt/darwin/
Quem não conhece exemplos de cidadãos que procuram técnicos camarários porque sabem que é-lhes mais fácil obter as licenças que pretendem? Quem não conhece casos de técnicos com gabinetes em concelhos diferentes de onde trabalham e que deslocalizam trabalhos para os comparsas como que já ‘pré-aprovados’ e comissões incluídas? A ordem dos arquitectos não sabe disto? Não quer saber o que estes técnicos, muitos deles arquitectos, andam a fazer? De alguns que atrasam propositadamente projectos de seus colegas de profissão para irem aniquilando a concorrência, não quer saber?
Gostava de viver num país em que pessoas com projectos como os do Sr Eng Sócrates não lhes fosse permitido operar.
Jorge Garcia Pereira
Os Pais facilmente descartam a responsabilidade principal que têm na instrução dos seus filhos para a escola.
Grande parte do que refere Peter Mathews os Pais portugueses deixam a cargo da escola, quando são eles os primeiros nesse processo de formação da criança enquanto individuo inserido na sociedade. Os Pais portugueses são genericamente na minha opinião maus, alimentam o consumo desmedido e fútil, a ostentação, aceleram a pressão dos filhos na obtenção dos melhores resultados na escola sem que os acompanhem nesse processo esquecendo-se de que os nossos filhos têm acima de tudo de serem felizes e não os melhores. Enchem os McDonalds e centros comerciais, esgotam play-stations e leitores de dvd’s que tanto jeito dão para entreter crianças e pararem de nos aborrecer!
Os professores, actualmente às aranhas com tanta avaliação e burocracia, vêem-se forçados a lidar diariamente com crianças com péssimos Pais. Eles próprios na sua maioria são professores de último recurso. Sem capacidade de lidar com a exigente prática de instruir estão agora a ser perseguidos por um ministério que quis na sua génese acabar com a pouca vergonha de muitos professores inqualificados que faltavam desmesuradamente deixando crianças à sua própria responsabilidade. Por uns pagam os outros, e quanto aos professores notáveis que tive enquanto aluno e que nunca os esquecerei, lamento todo o tormento que actualmente vivem.
Jorge Garcia Pereira


13h30:
- Jorge, esqueci-me de te avisar mais cedo, mas hoje tens que ir a uma junta médica às 16h30 aqui pela empresa!
- Lá se vai a tarde!
16h30:
- Como está desde o ano passado?
Reparo pela informação dada por uma balança tão trépida como o ambiente que a envolve que perdi uns quilos! 73 regista agora um mecanismo que comigo costumava oscilar entre os 75 e 80.
- Deve ser do trabalho e duma menina que lá em casa já não me deixa dormir como outrora - justifico.
A médica, Amélia, contrasta com o espaço. É uma mulher na casa dos 50’s, bonita, cativante ao falar pela simpatia que disfarça o tédio que passa num dia de consultas deste formato, 8 horas por dia, quando não mais. Alinho na sua simpatia para lhe ajudar a melhorar o dia, aqui e ali voltamos ao que realmente nos prende ali,
- Sim vejo bem e penso não ter problemas de audição.
No final ligo à Marta, sabendo que anda a deambular pelo centro da cidade. Está no Majestic (é uma mulher de fino gosto). Marcamos encontro na praça Filipa de Lencastre onde tenciono comprar um suporte de candeeiro para a casa de campo, retorquindo que onde se encontra é local caro e tenciono encontrar a habitual meia de leite e meia torrada a melhor preço.
Dou por mim em frente ao Café Ceuta, sempre gostei deste café embora nos tempos do meu escritório em Cândido dos Reis o tivesse preterido face ao Café Aviz, talvez pela proximidade. No seu interior é desolador o que vejo, encontrando par com as instalações da consulta da junta médica mas desprovido da simpatia da Dra Amélia. Apesar de detestar ser brindado com uma má torrada arrisco a entrada.
Em breve o Café Ceuta desaparecerá, pelo menos com esta escala de espelhos contínuos e mesas de madeira aconchegadas umas às outras. Talvez para dar lugar a um renovado e sofisticado Ceuta, quem sabe temático, com ilustrações da conquista de quatrocentos. Nessa altura haverá na cidade uma onda de nostalgia por este Ceuta onde me encontro, onda essa difundida precisamente por todos aqueles que aqui nunca os encontro.
18h30
Jorge Garcia Pereira
Fotografias: Porto (Portugal), 2009
