Saturday, December 6, 2008

Vozes Do Silêncio #002:

Fotografia: Esposende (Portugal), 2008

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Friday, October 24, 2008

Lisboa, alguns Lisboetas e o centralismo:

É corrente ouvirmos falar do centralismo existente na política em Portugal. Como cidadão que não vive na capital sinto no meu dia-a-dia os efeitos dessa política e assisto ao marasmo generalizado do quotidiano da minha cidade desprovida que está, há muito, de investimentos urgentes. Dois casos paradigmáticos do quanto prejudica o governo central a minha cidade são o desinvestimento em ligações urgentes previstas para a linha do Metro do Porto e, para que não fosse suficiente o corte de verbas, o governo central chega a bloquear o dinamismo privado no que ao aeroporto Francisco Sá Carneiro diz respeito.

Em visita à capital, onde visitei a exposição patente na LX-Factory (mas que desagradáveis intervenções têm sido feitas neste antigo espaço industrial chegando a ridicularizar aquele património), do arquitecto Suíço Peter Zumthor, pensei que não são só os que vivem fora da capital que sofrem com o centralismo.

Chegar a Lisboa vindo do Porto sempre foi uma experiência feia, recordo-me em pequeno dos gigantes bairros de lata da Portela agora transformados em torres habitacionais descaraterizadas que me deixam sempre com um pensamento nostálgico sobre todas aquelas pessoas que ali vivem. Que beneficio terá um Português que viva naqueles aglomerados habitacionais que se estendem de Vila Franca de Xira até bem no coração de Lisboa de viver perto do centralismo? Torres de 12 e mais pisos, de arquitectura duvidosa, fraca qualidade constructiva, alienadas de todos os centros culturais, mal servidas de transportes públicos e redes de acesso. O centralismo vive desta gente, explora esta gente, humilha-os. Viver na capital e perder 4 horas do seu dia no simples gesto de ir trabalhar, numa actitude de sobrevivência e dignidade deveria, aos políticos e lideres de decisão que por ali passam todos os dias entre as suas mansões e faustos escritórios, fazê-los pensar um pouco e tudo fazer para melhorar a vida de todos eles, de todos nós.

A ideia que o resto do país tem de Lisboa é de ser o lugar de todos os investimentos, onde vivem os grandes administradores de empresas, dos políticos com pensões criminosas, do centro de toda a cultura, de toda a documentação e espólio cultural do país, de facto isso também é Lisboa. Mas a Lisboa da grande maioria é pobre, não usufrui de estar no centro com maior índice de rendimento do país, se fala mal do resto do país é por não tem dinheiro para o conhecer. Chegar a Lisboa vindo de Norte continua a ser feio, muito feio, triste, muito triste, e continua a ser possível chegar bem ao centro de Lisboa rodeado de pobreza. A mim, que tanto gosto daquela cidade, deixa-me triste.

Faz exactamente hoje 861 anos que D. Afonso Henriques conquistava Lisboa aos mouros. Ironicamente encontrou uma cidade maioritariamente cristã, sem o tesouro prometido e que desde ai ficou à mercê da estupidez ‘cruzada’.

Jorge Garcia Pereira
Fotografia: Lisboa (Portugal), 2008

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Friday, October 10, 2008

Vozes Do Silêncio #001:

A cidade onde vivo, o Porto, foi sempre uma cidade suja. Em criança era comum a passagem por lixeiras a céu aberto, imagens essas que me deixam sempre indignado quando ouço as criticas ao que foi feito na cidade para melhorar as suas condições físicas, nomeadamente na época precedente a 2001. Apesar de algumas intervenções menos conseguidas nessa época, o centro do Porto ficou com menos passeios esburacados revestidos de rudimentar cimento, ruas em paralelo manchado por superfícies irregulares de alcatrão, automóveis caoticamente estacionados entre outras coisas que davam uma imagem terceiro mundista à cidade. O edificado esse continua em decadência, não sendo contagiado por essa onda de renovação, talvez encalhado por uma discutível e antiga lei de arrendamento e pela habitual especulação politica e imobiliária.
O que a renovação de 2001 não trouxe a par da cultura foi civismo. No Porto, tal como em outras cidades, é comum os maus cheiros, os passeios sujos, esquinas transformadas em sanitários públicos, as ruas em reservatórios de lixo dos cinzeiros dos automóveis, dos objectos que alguns evitam em colocar nos caixotes de lixo, nas beatas de fumadores à porta de cafés de gente fina ou ordinária, caminhar pelo Porto é de por vezes vergonhoso e deixa-me constrangido saber que a minha cidade se apresenta tão mal a quem a visita.
Por tudo isto confesso que adoro uma manhã chuvosa, bem chuvosa, daquelas cuja chuva provoca inundações nas ruas porque os boeiros estão entupidos de lixo e os quintais preenchidos por tijoleira ou chapa zincada impedindo os terrenos de beber as águas de sempre. Ver a água a correr rua abaixo, galgando passeios e limpando toda a merda que a gente da minha cidade espalha por aí faz-me sentir o mundo à minha volta mais limpo e respiro melhor. No fim tudo vai parar ao rio que sendo Douro fica com brilho mais esbatido.

Jorge Garcia Pereira
Fotografia: Porto (Portugal), 2008

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Monday, September 22, 2008

USA Today!

Invariavelmente as eleições Americanas ainda vão no adro e já muito se fala no mundo ocidental das mesmas. Ao bom estilo Europeu dá-se como certa a vitória de Barack Obama, do mesmo modo que Al Gore ganharia meses antes do escrutínio com alguma vantagem. A verdade é que os últimos desfechos das eleições Norte-Americanas têm demonstrado que o país ‘mais evoluído’ do mundo padece de tolerância, excede-se em conservadorismo e tem a par de muita pobreza, uma carência de conhecimento do que realmente se passa no mundo, para tristeza de muitos outros cidadãos daquele país que desde lugares como Nova-Iorque, Chicago, São Francisco, etc, vêm sempre com vergonha adicional os resultados finais.
Uma vez mais Luís Campos e Cunha escreveu acertadamente na semana passada no público sobre este fenómeno (curiosamente é incrível a facilidade com que leio e aprovo as crónicas de Campos e Cunha, talvez pelo seu bom senso não corroborou com as sucessivas medidas deste governo), alerta para o que se está a passar actualmente nestas eleições, em que uma das candidatas, a Vice Republicana Sarah Pallin, para além de demonstrar a cada oportunidade que tem de falar que não conhece o mundo (recorde-se que só tem passaporte há menos de um ano), veio defender a invasão do Iraque alegando que os soldados Americanos estão a prestar um serviço a Deus! Não suficientemente assustador de que ter uma senhora com esta cultura na Vice liderança do país mais influente no mundo, o seu presidente,  John McCain, vem agora em entrevista aliar Zapatero a todos os lideres Latino-Americanos dizendo que não receberá o 1º Ministro Espanhol na Casa Branca. A dúvida que me fica é saber se de facto McCain conhece o que se passa no mundo e reage à medida acertada de Zapatero de retirar do Iraque o contingente Espanhol lá localizado, ou confunde geograficamente Espanha e a coloca algures entre a Colômbia e o Equador, o que num Americano não seria de admirar!
McCain e Pallin, duas pessoas que ainda podem justificar que existe ainda pior que George W. Bush, têm fortes possibilidades de ganhar numa América que não é o que a Europa quer.
Num momento em que as mulheres ganham terreno no mundo da politica, na África do Sul, Israel, Chile, Alemanha, pela primeira vez no Ruanda a maioria do parlamento é composto por mulheres (eventual resultado de uma guerra que a Europa fingiu não existir), Pallin surge como uma figura importante no actual panorama politico Americano e até ao momento está a baralhar, e muito, as contas dos Democratas. Infelizmente pelos piores motivos.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: New York City (USA), 2005

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Monday, July 28, 2008

O optimismo mamário.

Neste fim-de-semana fui a um casamento de uma das boas amigas que guardo desde os tempos da faculdade.
Para além da habitual decoração temática deste tipo de eventos a que os convidados, e convidadas, se juntam trajando das melhores indumentárias que há lá pelo armário, presenciamos um ambiente leve e agradável que, mesmo com um dj fora de ritmo, nos acompanhou até altas horas da noite.
É precisamente sobre a melhor indumentária feminina que se trata estas minhas linhas.
Sabemos bem que as mulheres vivem nestas celebrações uma competição da qual só querem deixar vencer a noiva, tentando por vezes a todo o custo, atrair a si as atenções dos demais presentes e em particular a do fotógrafo.
Como as pessoas que uniam as suas intenções eram da minha geração e bastante próximas decidi, como quase sempre faço nestas ocasiões, fazer-me acompanhar de uma pequena máquina fotográfica 10,5×5,5cm para ir ao longo do dia retratando um ou outro momento que me parecesse interessante para o álbum das recordações. Num dos périplos pela pista de dança, munido da máquina a operar e acompanhado alegremente por um amigo, eis que somos interrompidos por um convidado para mim anónimo, propondo-nos que o fotografássemos já que tínhamos fotografado as mamas da sua namorada! É claro que não vos iria apresentar a fotografia de tal sortudo detentor dos direitos de usufruto do par de mamas referido, mas tentei encontrar as mamas que supostamente teria fotografado. Para tristeza de todos os visitantes do meu blog o melhor que encontrei foi esta imagem cujo ‘crop’ retrata a namorada (também ela para mim anónima), do anónimo anterior.
A mim por vezes parece-me que basta um homem estar com uma máquina fotográfica direccionada a um ser feminino, ou por vezes simplesmente um curto olhar, como quando estamos a olhar intermitentemente para um chão de frequência canina, para que uma mulher portuguesa pense automaticamente que os nossos intentos são os de a levar numa noite de aventura ou até mesmo a de seguir com ela as pisadas dos noivos presentes. Contudo, e depois de uma breve reflexão, pareceu-me que neste caso o optimismo vinha por parte do namorado, que dado a entediante música do dj achou que as mamas da sua companheira eram do melhor que havia naquela festa.

O ideal era que todo este optimismo fosse transversal na nossa sociedade o que, em tempos de crise, daria um enorme jeito.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Forjães (Portugal), 2008

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Thursday, July 10, 2008

Imagens que não quero ver:

Hoje chegou à minha caixa de correio electrónico uma daquelas mensagens que ninguém quer receber. Tratou-se de uma circular com imagens chocantes de algumas das facetas mais tristes da actual sociedade chinesa, numa tentativa de pedir ao mundo que boicotem a sua participação, nem que seja televisiva, aos próximos jogos olímpicos de Pequim. Preferi anexar a este texto esta bela menina que fotografei no Nepal há cerca de dois anos e poupar-me à repetição das imagens recebidas e que me deixaram num estado indescritível. Embora seja da opinião que se deva falar e combater o mal que neste século ainda graça por este planeta, estando em termos cósmicos (e não só), pertíssimo da idade média, e que entenda o que muitos fotógrafos de guerra fazem e defendem, penso que a repetição exaustiva de imagens chocantes devia, tal como o comunismo na china, ser banido. Não tenho a minima dúvida de que se a filha que tenho com 8 meses nunca viesse a ter contacto com a violência e com muita da ficção que passa gratuitamente em nossa casa através da televisão e agora através da internet, dificilmente se lembraria de arrancar um olho a um gato, fazer sofrer um cão, esfolar um animal vivo só para que a sua pele fique mais macia num novo casaco, ou passar descontraidamente por um recém-nascido que jaz na berma da rua após ter sido propositadamente ali deixado para que um camião o devolvesse ao reino dos céus só por ter sido menina. Tudo isto que descrevo relata sucintamente o teor das imagens que recebi oriundas da China e que me deixaram num estado supra-citado. Actualmente muito se fala da China, como dos Estados Unidos da América, como de todos os países que economicamente se tornam importantes, esquecendo-se deste modo que outras atrocidades se passam, mesmo que a menor escala, em países humildes e brandos como o nosso. Não será para nós difícil encontrar situações de maus tratos a animais e situações escabrosas com crianças na tão respeitosa Europa.

No entanto confesso que me aborrece um pouco esta avidez de lucro que jarra dos nossos investidores que se atiram com todas as garras para mercados como os da China ou Angola. E não é por um sentimento tipicamente luso de inveja, é porque tenho a clara noção que essa mesma gente não se preocupa minimamente em melhorar a condição geral da vida daqueles povos. Infelizmente eu, que tenho por exemplo automóvel e calço meias, participo indirectamente em toda esta pouca vergonha.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Kathmandu (Nepal), 2006

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Thursday, June 26, 2008

Feliz Aniversário Avô:

O meu Avô, na imagem, faz hoje tantos anos que já nem sabe.
O meu Avô também não sabe que lhe desejo feliz aniversário na ‘internet’.
O meu Avô não sabe que assim todo o mundo pode saber que o felicito.
O meu Avô não sabe que hoje penso muito nele.
O meu Avô, na imagem, faz de conta que os dias já não existem.
O meu Avô sabe muitas outras coisas,
Como o facto de o meu amor por ele ser infinito.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Vila Franca Da Beira (Portugal), 2003

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Tuesday, June 3, 2008

A minha rua mudou.

Era uma árvore poderosa, marcava claramente o topo da rua onde cresci. Em pequeno diziam-me que se tratava de uma Otília, mas parece-me que tal árvore não existe. Era à sombra daquela gigantesca árvore que brincava no recreio da escola, que esbarrava nos pequenos jogos do que pensávamos ser rugby, cuja idade nos permitia terminar os ensaios em pleno chão de cimento, que trocávamos as bolas de futebol (proibidas pela professora para não incomodar os adultos) por pacotes de leite cheios de ar dos nossos jovens pulmões oferecidos pelo tão generoso Estado democrático.
Há pessoas que nos são importantes na vida, mas há também árvores que o são, e para mim esta era claramente uma das mais importantes.
Ontem, a caminho do almoço que tem sido na companhia do eterno sorriso da Princesa Bebé, deparei com este cenário, dois senhores, em trajes que nos dão um toque de país quase evoluído, terminavam a limpeza daquilo que no dia anterior pensava ser uma rotineira poda, um pouco fora de época pensei posteriormente. A ‘Otília’, que era também o nome de uma professora daquela minha escola com um temperamento um pouco inadequado para crianças de 6 anos, terminou os seus dias, supostamente porque tal como nós não resistiu ao tempo e deixou-se consumir no seu interior pelo cansaço da idade.
Se alguma vez existiu um tipo de árvore chamada Otília, então era aquela e não existe mais.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Porto (Portugal), 2008

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Thursday, May 29, 2008

Victor Jara:

Estadio Chile”.

“Somos diez mil manos menos
Que no producen.
¿Cuántos somos en toda la Patria?
La sangre del compañero Presidente
golpea más fuerte que bombas y metrallas.
Así golpeará nuestro puño nuevamente.
Canto, qué mal me sales
cuando tengo que cantar espanto.
Espanto como el que vivo
como el que muero, espanto”.

 

Victor Jara, músico e activista Chileno, foi assassinado a 15 de Setembro de 1973 pelas tropas de Pinochet. Estas foram as últimas linhas escritas antes de desistir de viver após 3 dias de espancamentos.


 

Texto: Victor Jara

Fotografia: Jorge Garcia Pereira, La Havana (Cuba), 2004

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Monday, May 26, 2008

(h)Otel:

Ainda sobre o acordo ortográfico devo dizer que mudei momentâneamente de opinião sobre o mesmo. Recordo-me de em criança escrever ‘muinto’ pois era esta a forma exacta que me parecia soltar da voz aquando a expressão de tal palavra. Foi difícil acreditar na minha professora quando me corrigia e via com um sentimento de enorme injustiça a pobre palavra riscada a um vermelho impiedoso nos comuns testes de rotina. Daí que com o lado facultativo do acordo (confesso que é esta a parte que mais me atrai), e no seu argumento de colar a escrita à fala, como sempre fizeram os Indios da Amazónia, este acordo evitará a angústia de ‘muintas’ crianças que, tal como eu outrora, embirram com ‘muintas’ das palavras no momento da sua aprendizagem.

Jorge Garcia Pereira
fotografia: Porto (Portugal), 2008

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